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sábado, 17 de junho de 2017

A FORÇA DA SORTE

               É muito comum ouvirmos a história de pessoas ricas que ficaram pobres.
                Em tempos muito remotos houve um lutador, que por motivos muito estranhos, depois de ter angariado uma grande fortuna se viu reduzido à miséria.  Atormentado pela fome, e não possuindo qualquer meio de subsistência, foi lamentar-se ao seu pai e pedir-lhe algum dinheiro para viajar, pois que talvez pela força do seu braço, pudesse realizar os seus desejos. Talento e habilidade de nada valem se não forem exibidos.
               O pai respondeu:
               - Meu filho, afasta do teu espírito essas idéias impraticáveis, e fase com que a conformidade com a tua sorte te leve ao caminho da segurança; porque os sábios disseram: "As riqueza não se podem  obter pela força material; mas o remédio contra a necessidade é a moderação dos nossos desejos. Ninguém pode agarrar a força a riqueza pelos cabelos, e é trabalho perdido aplicar unguento aos olhos dos cegos." Mesmo que cada cabelo da tua cabeça possuísse duzentas virtudes, de nada serviriam, se a fortuna não te fosse propícia. O que pode valer um homem forte, mas desafortunado? Mais vale o braço da fortuna do que o braço da força. 
               O filho replicou: 
               - Meu pai! São muitas as vantagens que as viagens nos oferecem; elas podem enriquecer nosso espírito com conhecimentos proveitosos; ver maravilhas e ouvir coisas desconhecidas; ouvir outros homens conversando; adquirir nova educação e boas práticas; aumentar os bens; a felicidade de adquirir um novo modo de vida, estabelecendo relações íntimas; além da experiência do mundo, conforme já foi dito por homens sábios. Enquanto se estiver agarrado aos serviços e à casa nunca terá oportunidade e nem se fará homem  o pobre ingênuo. É partir, viajar pelo mundo, antes que chegue o momento em que teremos de o deixar. 
               O pai retorquiu: 
               - Oh! meu filho, grandes são sem dúvida os benefícios das viagens, tais como tu acabas de os descrever, mas são grandes especialmente para cinco classes de homens: Primeiro - Para o negociante que possuindo riquezas e dignidades, com formosas escravas e ativos servos, pode passar cada dia em uma nova cidade, e cada noite em um lugar diferente, divertindo-se a cada momento com os prazeres mundanos, em lugares diferentes. O homem rico não é um estranho nem nas montanhas, nem nos desertos; onde quer que esteja, levanta a sua tenda e assentará seus pertences; enquanto que aquele que não possui os confortos da vida, mas que se vê sem meios de subsistência, é um estranho, desconhecido mesmo entre seus "amigos" na própria terra natal.   Segundo - Para o homem de saber, que pelas suas palavras agradáveis, pela sua poderosa eloquência e pela sua bagagem de conhecimentos, por toda a parte é procurado e respeitado. A presença do sábio assemelha-se ao ouro puro, pois que, em qualquer lugar que se encontre é conhecido o seu valor intrínseco, bem como a sua importância. Um filho ignorante de um homem rico é como o dinheiro feito de couro, que é corrente em uma cidade especial, mas que num país estrangeiro ninguém quererá receber.  Terceiro - A pessoa bela, por quem se sentem atraídos o corações das pessoas virtuosas, que dão um alto valor à sua companhia, considerando que em algum momento lhe será útil e lhe prestará algum serviço.  É conforme diz o ditado: "Mais vale alguma beleza do que muita riqueza!" Uma pessoas formosa é um bálsamo para um coração ferido, e pode ser também uma chave que abre todas as portas. O homem dotado de beleza  é recebido com honra e respeito em toda a parte. Numa ocasião eu vi uma pena de pavão entre as folhas de um Alcorão sagrado, e disse-lhe: "Considero isto uma honra muito maior  do que merece a tua condição." O livro disse: "Cala-te! aquele que tenha beleza, seja onde for que apareça, não é sempre recebido com respeito? O filho que é dotado desta beleza não sente medo do seu pai! É uma pérola rara que não deve permanecer na conha que nasceu, e para uma pérola preciosa sempre existe comprador.  Quarto - O harmonioso cantor, aquele que com a voz de David faz parar as águas no seu curso, e suspende os pássaros no seu voo; e que pelo poder desse encanto, cativa os corações da humanidade e que faz que os religiosos desejem atraí-lo para junto de si. A minha atenção prende-se completamente ao som duma doce voz; quem é aquele que tão bem conhece os segredos da arte da harmonia?  Como é deliciosa uma voz terna e triste, ao romper do dia aos ouvidos daqueles que o amor embriaga! Uma doce voz é melhor do que um formoso rosto; pois  que este produz o prazer sensual, ao passo que aquela encanta a alma.  Quinto - O artífice, que ganha os meios de subsistência com o trabalho do seu braço, para que seu bom nome não seja prejudicado pela falta de pão. O sábio Disse: "Se um artífice sai da sua terra para uma viagem não passa dificuldades nem aflições; mas se o rei de Ninroge andasse errante fora do seu reino deitar-se-ia com fome à noite. As qualidades que acabo de referir-me são os meios de proporcionar conforto ao espírito dos que viajam, e os agentes que promovem grandes prazeres; mas aquele que não possui alguma dessas qualidades entra no mundo com expectativas vãs; e ninguém conhecerá seu nome, nem dele verá sinais. Aquele que as resoluções do céu encolerizado afligem, é perseguido pelo mundo. A pomba que é destinada a não ver mais seu ninho, é pela sorte conduzida ao laço e à armadilha. 
                 O filho disse então: 
                  - Oh! meu caro pai, como contradizer uma outra máxima dos sábios, que diz: "Os bens necessários à vida são acessíveis a todos; contudo, para os alcançar, precisa-se esforço, e conquanto a infelicidade seja uma lei, o nosso dever é evitar o caminho por onde ela possa entrar?" Ainda mesmo que nos seja assegurado o pão de cada dia, a razão impõe-nos o dever de o procurarmos fora de casa. Embora ninguém possa morrer antes do momento decretado pelo destino, nenhuma razão há para que corramos para as faces do dragão.  Na minha situação presente estou apto a me defrontar com um elefante enraivecido e a combater até o feroz leão; e tenho além de tudo para viajar o motivo de que não posso por mais tempo suportar a indigência. Quando um homem decai de sua posição e dignidade, o que mais para ele pode ter interesse?  é um cidadão do mundo. O homem rico recolhe-se à noite ao seu palácio, mas o pobre faz de seu albergue o lugar em que a noite o  surpreender.
                  Assim falou, despediu-se de seu pai, pediu-lhe que o abençoasse e partiu. Nesse momento alguém o ouviu dizer: 
                 - O artista, a quem a fortuna não é propícia, dirige os seus passos para um lugar onde seu nome não seja conhecido. 
                 Viajou, viajou ate chegar ás margens de um rio, cuja corrente era tão rápida que as  pedras se precipitavam umas sobre as outras, e o seu ruído se ouvia a muitas milhas de distância. Eram águas terríveis, nas quais nem mesmo as aves aquáticas estavam em segurança; e a mais pequena das suas ondas arrastaria da praia uma pesada pedra de moinho. Viu um grupo de pessoas assentadas na barca de passagem, tendo cada uma delas uma pequena moeda; e todas estavam fazendo as suas trouxas para a travessia. O jovem viajante, que não tinha dinheiro, recorreu às súplicas, mas sem resultado, porque os donos da barca lhe disseram: 
                 -Não se pode aqui usar de violência com pessoa alguma, e se não tens dinheiro, a força não pode valer-te. 
                 O desumano barqueiro riu-se dele também e voltou-lhe as costas dizendo; 
                 - Não tens dinheiro, e não podes atravessar o rio por meio da tua força. De que serve aqui a força de dez homens? Traga-me o dinheiro de um só que o deixarei embarcar. 
                 O jovem viajante, ferido por este sarcasmo, sentiu desejo de se vingar. E quando o barco já havia partido gritou: 
                 - Se te contentas com este vestuário que tenho sobre mim, dar-te-ei de boa vontade.  
                 O barqueiro, que era ganancioso, imediatamente trouxe de volta o barco à margem do rio pensando em apanhar o viajante.  A cobiça fecha os olhos dos mais espertos. e faz cair na armadilha tanto o peixe como o pássaro mais astuto. 
                 Ao chegar à margem o jovem pegou o barqueiro ferozmente pelo pescoço  e jogou-o ao chão sem a menor piedade.
                 Um dos companheiros do barqueiro saiu da barca para lhe prestar auxílio; mas de tal modo foi maltratado, que desistiu do seu propósito. Ambos julgaram prudente apaziguar o jovem viajante e comprometeram-se a permitir sua travessia. Quando virdes uma luta, mostrai-vos sereno, pois que uma disposição pacifica fecha a porta à discórdia. A maldade deve opor-se à bondade; a dura espada não corta a seda macia. Usando boas palavras e modos afáveis podeis conduzir um elefante com um cabelo. Penitenciando-se  pelo que  sucedera, os dois homens caíram aos pés do jovem atleta, e depois de lhe beijarem hipocritamente as mãos e o rosto, levaram-no para a barca, e nela o conduziram até chegarem a um pilar de construção grega, que se erguia no meio do rio, e então o barqueiro bradou: 
                - A barca está em perigo! aquele de entre vós que tenha mais força e coragem suba àquele pilar e segure a corda da barca para podermos salvá-la!
                O jovem atleta, na vaidade de sua grande força da qual se vangloriara, e não pensando na ofensa que infligira aos seus adversários, esqueceu aquela máxima dos sábios: "Se dirigiste uma ofensa contra qualquer pessoa, e depois lhe dispensaste um cento de favores, não penses que ela esquecerá de se vingar em ti pela ofensa isolada; pois que a seta pode ser retirada da ferida, mas a sensação de dor ali continuará persistindo."  Excelente foi o conselho que deu Yuktach  a Khiltach: "Se espezinhaste o teu inimigo, não te consideres seguro. Quando por tua culpa o coração doutrem sofreu algum mal, não esperes estar tu próprio isento de aflição. Não lances pedra contra as muralhas de um castelo, pois pode por ventura outra pedra ser lançada do castelo contra ti." 
                 Tão logo o jovem viajante enrolou a corda em volta do braço, e foi até o topo do pilar, o barqueiro aproveitou a oportunidade, puxou com força a corda e tratou de levar o barco o mais longe possível. Dessa forma o jovem atleta foi abandonado à própria sorte.  Durante dois dias sofreu grande aflição e muitas privações; no terceiro dia, vencido pelo sono, caiu no rio. Depois de um dia e uma noite  de luta pela sobrevivência chegou finalmente à terra firme. Suas forças estavam exauridas e ele já quase moribundo. Para não morrer de fome alimentou-se com folhas de árvores, de ervas e de raízes. Após recuperar-se um pouco caminhou em direção a um campo deserto chegando cheio de fome e sede junto a um poço. Viu que em volta havia um grupo de pessoas reunidas que bebiam água do poço em troca de uma pequena moeda. Como não tinha nenhum dinheiro suplicou ao dono do poço que lhe desse um pouco daquela água. Não sendo atendido partiu para a agressão; após derrubar alguns dos homens presentes foi dominado, espancado e deixado ali gravemente ferido.  
                Os sábios sempre disseram: "Um enxame de mosquitos tortura o elefante, não obstante a sua força e o seu valor. As pequeninas formigas, quando tem uma ocasião oportuna, chegam a tirar o pelo do mais feroz leão."
                 Doente e ferido, saiu andando como podia e teve a sorte de encontrar uma caravana que passava por ali. Sem outra alternativa juntou-se a ela.
                 Ao cair da noite chegaram a um lugar que estava infestado de ladrões salteadores de estradas. Logo percebeu que os viajantes da caravana ficaram tremendo de medo, com aspecto de quem estava avistando a morte certa. Então disse-lhes: 
                - Não precisam recear, pois eu estou aqui e posso defendê-los; garanto que dou conta de 50 desses bandidos, quanto aos demais vocês me ajudarão.
                Os membros da caravana sentiram-se aliviados e ficaram felizes por tê-lo em sua companhia. Em seguida deram-lhe comida e bebida até estar totalmente satisfeito. Depois de ter comido e bebido exageradamente, e estando muito cansado acabou adormecendo profundamente, deixando seus companheiros desprotegidos. 
                Um velho membro da caravana, senhor experiente que conhecia bem a vida e o mundo, tomou a palavra e disse: 
                 - Meus companheiros! me desculpem, mas eu temo mais o vosso guardião do que os próprios ladrões; não sei se já ouviram falar da história de um árabe que, tendo juntado algum dinheiro estava com medo de dormir sozinho em casa, pediu então a um amigo que lhe fizesse companhia; o amigo passou algumas noites em sua casa, mas tão logo teve conhecimento da fortuna que estava guardando apoderou-se dela e fugiu.  Na manhã seguinte o árabe foi encontrado vagando e se lamentando pelo acontecido. Perguntaram-lhe o que estava havendo, se os ladrões lhe tinham roubado seu dinheiro. O árabe respondeu: 
                Pelo amor de Deus! não foram os ladrões, mas o amigo que me ajudava guardá-lo.
                Já diziam os sábios: " Ninguém deve sentir-se seguro ao lado de uma serpente conhecendo sua índole. A ferida dos dentes de um inimigo não pode ser mais cruel do que quando é feita com a aparência da amizade." 
                 E o velho senhor concluiu dizendo:  - Meus amigos,  as aparências enganam. Como saber se este rapaz não seria um dos ladrões que, por astúcia se tenha infiltrado entre nós com o intuito de nos entregar aos seus companheiros?   Portanto, meu conselho é que o deixemos dormindo e aproveitemos para partir imediatamente. 
                  O conselho do ancião foi atendido pelos mais novos e, como tinham suas suspeitas sobre o jovem atleta, levantaram logo acampamento e partiram. 
                  Ao sentir o calor do sol sobre suas costas o jovem acordou e percebeu que estava só. Sem saber o que fazer ficou a vagar pelo deserto sem conseguir encontrar o caminho certo. Cheio de fome e de sede, deitou a cabeça no chão e, no auge do desespero gritou: 
                  - Com quem falarei agora que todos partiram com seus camelos?
                 Diz a sabedoria que: "longe de casa, um viajante não tem amigos. O que mais sofre com uma viagem é aquele que nunca tenha experimentado as dificuldades que ela impõe a qualquer um que queira experimentá-la."
                Após ter dado aquele grito de desespero sentou-se em completo desânimo.
                Seu grito fora ouvido pelo filho mais velho do rei que ali andava a procura de caça. Vendo aquele jovem com tão boa aparência e tão desesperado perguntou-lhe: 
                - Porque tanta aflição? o que te aconteceu? de onde veio? 
                Ele então prontamente contou tudo o que lhe sucedera e quanto tinha sofrido desde que saiu do aconchego de sua casa. 
                O príncipe então deu ordem que o levassem em segurança de volta para seu pai.
                Com a chegada do filho o pai sentiu-se aliviado e deu graças a Deus pela sua volta ao lar são e salvo. 
                 Depois de tomar um bom banho, alimentar-se e vestir uma roupa limpa sentou a lado do seu pai e contou-lhe tudo o que ocorrera desde sua saída. Contou sobre o barqueiro, o dono do poço de água e os companheiros de caravana que o traíram. 
                Tendo ouvido toda sua história o pai lhe disse: 
                Meu filho, bem que te avisei antes de tua partida; o homem pode ter muita força, mas sendo pobre tem as mãos atadas para tudo; seu pé, mesmo que seja forte como a pata do leão, não pode avançar além de um limitado espaço.  Já dizia um sábio gladiador: "Um grão de ouro vale mais do que cinquenta arrateis de força.
                O filho replicou: 
                 - OH meu querido pai! na verdade sem vencer as dificuldades não se pode adquirir riqueza; quem nunca põe em perigo a vida não pode ganhar a vitória contra um inimigo e, sem espalhar a semente na terra não se pode encher o celeiro; se prestar atenção verá que, em troca das aflições que sofri, trouxe muita riqueza comigo; que pela picada de abelha que recebi, foi grande a provisão de mel que me deu. Se não pudermos gozar de bens que a Providência não nos destinou, devemos lutar para consegui-los. Se o mergulhador pensasse nos dentes do crocodilo nunca conseguiria perolas tão preciosas. Que alimento encontraria o leão se não saísse de sua caverna? Que caça se poderia apanhar com um falcão que não voa? Se ficarmos esperando por alimento em nossa casa nossos pés e mãos ficarão delgados com os da ranha. 
                 - OH caro filho! o céu favoreceu-te desta vez, e foi teu guia a boa fortuna, de tal modo que conseguiste colher a rosa entre os espinhos e extrair o espinho de teu pé; um homem poderoso encontrou-te, compadeceu-se de ti, enriqueceu-te e transformou em boa a tua triste condição. Mas nunca se esqueça que gestos como esse são raros; não devemos esperar que um milagre sempre nos salve. O caçador nem sempre mata a caça e muitas vezes pode até ser a presa fácil do tigre. Vou lhe contar um fato: - Numa certa ocasião um rei da Pérsia, possuidor de um anel ornado com uma pedra  de grande valor, foi a passeio em uma longa excursão a Mussúla Shiraz,; levou consigo alguns amigos particulares, e chegando lá ordenou que fixassem o anel no zimborio de Asud, com uma placa dizendo que quem fizesse passar uma seta pelo pequeno círculo, teria direito ao anel. Naquela ocasião o rei tinha a seu serviço um exército de 400 arqueiros experientes  e todos erraram o alvo; mas nesse momento apareceu um rapazinho que brinca atirando setas ao acaso em direção ao telhado de um convento; aconteceu que uma forte brisa direcionou uma flecha exatamente para o orifício do anel.  O jovem recebeu como prêmio, o anel e muitos outros bens valiosos.  Depois disso o jovem queimou seu arco e flechas, e quando lhe perguntaram porque fazia aquilo, respondeu: 
                  - Para que a fama desta minha proeza seja duradoura.
                  Pode acontecer que o prudente conselho de um sábio não dê o resultado desejado; e também pode dar-se o caso de uma criança inexperiente acerte, por um feliz acaso, uma seta no alvo. 

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