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terça-feira, 20 de junho de 2017

CONFORMIDADE COM A SORTE

                  Ouvi contar dum Derviche (sacerdote mendicante) que sofria grands privações em razão da sua pobreza, e cosia remendo sobre remendo, mas que se contentava coma seguinte sentença: 
                  - Contento-me com pão duro e com um vestuário de grossa lã, pois que mais vale sustentar o fardo das próprias necessidades, do que aumentar o peso dos favores da humanidade. 
                  Alguém lhe disse: 
                  - Porque razão permaneces tu nessa inação, sendo certo que existe nesta cidade um homem de espírito generoso, dotado de benevolência universal, sempre ocupado em socorrer os homens piedosos, e constantemente pronto a consolar os aflitos? Se ele fosse informado da tua situação, consideraria como um dever dar remédio às tuas privações. 
                  O Derviche replicou: 
                  - Cala-te! é melhor morrer de penúria do que expor as dificuldades do vosso viver a qualquer pessoa; pois está já dito que coser remendo sobre remendo e ser paciente é preferível a dirigir um requerimento a um  homem poderoso, pedindo-lhe que nos dê vestuário. 
                  Na verdade, entrar no paraíso com ajuda dos vizinhos, equivale a sofrer os tormentos do inferno. 
                  Certo literato, que possuía muito poucos meios de fortuna, e tinha uma família numerosa a sustentar, expôs a sua situação a um homem de alta posição, que formava dele uma opinião muito favorável. Este não aprovou o seu procedimento, achando-o indigno de um homem de espírito. 
                  Quando estiveres descontente com a vossa sorte, não vos aproximeis do vosso mais querido amigo, pois que assim transformareis em tristeza o seu prazer. Quando expuserdes a vossa aflição, conservai um aspecto animado e sorridente. Lembre-se que aquele que mantém uma expressão de alegria, consegue sempre bons resultados aos seus pedidos. 
                  O homem de elevada posição aumentou um pouco a sua pensão, mas passou a tratá-lo com menos consideração do que anteriormente. Algum tempo depois, notando esta diminuição de afeição, o outro disse: 
                  - Amargo é o pão que se obtêm no tempo da penúria; ferve a panela no lar, é certo, mas sofre a consideração.  Ele aumentou o meu pão, mas diminuiu a minha honra; mais vale viver destituído de meios, do que sofrer o desaire de pedir. 
                  Um ladrão disse ao mendigo: 
                  - Não tens vergonha de estender a mão a qualquer homem sem honra para obter um grão de prata? 
                  O mendigo respondeu: 
                  Melhor é estender a mão para pedir um grão de prata do que fazê-la cortar por ter roubado.

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